horia Falar com a Horia

Dados para IA: o que a empresa precisa (e o que não precisa) ter

Para começar com inteligência artificial, a empresa não precisa de um data lake nem de todos os dados limpos. Precisa de acesso aos documentos e sistemas que o processo escolhido já usa, de uma fonte confiável para cada informação crítica e de qualidade cuidada só onde o erro custa caro. Os dados para inteligência artificial se organizam a partir do caso de uso, não antes dele.

Por Bruno Stefani · · 5 min de leitura

A conversa sobre dados para inteligência artificial costuma travar projetos antes de começarem. Alguém diz que primeiro é preciso organizar todos os dados da empresa, montar um repositório central e só depois pensar em IA. Parece prudente. Na prática, adia o valor por anos e não garante nada.

Este artigo separa o que a sua empresa realmente precisa ter do que pode esperar. A regra geral é simples: os dados se organizam a partir de um processo concreto, não de um plano abstrato.

Preciso de um data lake antes de usar IA?

Não. Um data lake é um repositório central que junta dados de vários sistemas. Ele tem utilidade, mas não é pré-requisito para a maior parte dos usos de IA nas empresas hoje.

Os agentes de IA atuais trabalham bem com o que já existe: contratos em PDF, manuais, planilhas, e-mails, cadastros no ERP e históricos no CRM. Eles leem esses materiais como estão, desde que tenham acesso a eles e saibam qual versão vale.

O risco do caminho inverso é conhecido. A empresa passa um ano organizando dados que ninguém sabe se vai usar. Quando o primeiro caso de uso aparece, descobre que faltava justamente a informação que importava.

Dado organizado sem uso definido vira custo. Dado organizado para um processo vira resultado.

Quais dados a IA realmente precisa?

A IA precisa dos dados que a pessoa que hoje faz o trabalho consulta. Se um analista responde a uma dúvida olhando o contrato, a tabela de preços e o histórico do cliente, são esses três que o agente precisa acessar.

Um bom jeito de mapear é acompanhar a tarefa por um dia e anotar cada fonte aberta. Em geral, as fontes se dividem em dois grupos:

TipoExemplosO que a IA faz com eleCuidado principal
Dados estruturadosCadastros, pedidos, notas fiscais, estoque, metasConsulta valores, cruza registros, calculaCampo certo, sistema de origem definido
DocumentosContratos, manuais, políticas, propostas, atasLê, resume, compara, extrai trechos com fonteVersão vigente e permissão de acesso

Os dois tipos convivem no mesmo processo. Um agente de propostas, por exemplo, lê o pedido do cliente (documento), consulta preços no ERP (estruturado) e monta a resposta com base nas regras comerciais (documento).

Documentos como estão: o que dá para aproveitar sem reorganizar

A maior parte do conhecimento útil de uma empresa está em documentos, não em tabelas. E boa parte pode ser usada como está.

O que costuma funcionar sem retrabalho:

  • PDFs com texto, mesmo longos e com formatação irregular.
  • Planilhas com cabeçalho claro, mesmo que espalhadas em pastas.
  • Manuais técnicos e procedimentos internos.
  • Histórico de e-mails e chamados, quando o acesso é autorizado.

O que costuma exigir ajuste:

  • Várias versões do mesmo documento sem indicação de qual vale.
  • Documentos escaneados de baixa qualidade.
  • Regras importantes que só existem na cabeça de alguém.

Esse último ponto é o mais comum. Antes de limpar dados, muitas vezes o trabalho é escrever o que nunca foi escrito. Falamos disso em detalhe no artigo sobre base de conhecimento para IA.

Onde a qualidade dos dados importa de verdade?

A qualidade importa onde o erro custa caro. Não faz sentido exigir o mesmo rigor de todos os dados da empresa.

Uma forma prática de decidir é classificar as informações do processo pelo impacto de um erro:

  1. Crítico: preço, prazo contratual, dosagem, especificação técnica, dado fiscal. Exige fonte única, conferida e com responsável.
  2. Relevante: histórico de atendimento, status de pedido, contatos. Precisa estar atualizado, mas um erro pontual é corrigível.
  3. Contexto: materiais de apoio, apresentações antigas, referências. Ajudam, mas a resposta não depende deles.

Concentre o esforço de limpeza no primeiro grupo. Para o terceiro, basta indicar ao agente que é material de apoio e não fonte oficial.

Dados estruturados x documentos: quem é a fonte da verdade?

Cada informação crítica precisa ter uma fonte da verdade. Fonte da verdade é o lugar oficial onde aquela informação vale, mesmo que ela apareça em outros lugares.

Um exemplo: o prazo de entrega aparece no contrato, numa planilha do comercial e no ERP. Se os três divergem, o agente vai errar ou travar. A decisão de gestão é dizer qual deles vale. Normalmente, o sistema transacional vence para valores do dia a dia e o contrato vence para condições acordadas.

Essa é uma decisão de negócio, não técnica. Por isso cabe à liderança, não à equipe de TI sozinha.

O que a empresa não precisa ter para começar

Vale listar o que costuma ser apontado como obrigatório e não é:

  • Todos os sistemas integrados. Basta integrar os que o processo escolhido usa.
  • Dados históricos perfeitos. O agente trabalha com o que é atual; o histórico ajuda, mas raramente é bloqueio.
  • Uma equipe de ciência de dados. Agentes que leem documentos e consultam sistemas não exigem modelos treinados do zero.
  • Um projeto de governança de dados completo. Precisa de regras claras para os dados do caso de uso, não de um programa corporativo pronto.

Segundo o estudo da BCG Where's the Value in AI?, cerca de 70% do desafio de gerar valor com IA está em pessoas e processos, não em tecnologia ou algoritmos. Dados entram nessa conta, mas raramente são o gargalo principal.

Como organizar os dados a partir do caso de uso

O caminho que funciona é curto e repetível. Escolha um processo e organize apenas o que ele precisa:

  1. Defina o processo e o resultado esperado.
  2. Liste as fontes que a equipe consulta hoje para executá-lo.
  3. Classifique cada informação pelo impacto de um erro.
  4. Defina a fonte da verdade para cada informação crítica.
  5. Dê ao agente acesso só ao que é necessário, com as permissões certas.
  6. Registre as lacunas encontradas e corrija as que afetam o resultado.

A cada novo processo, a base fica mais organizada. Depois de alguns casos, a empresa tem dados melhores do que teria com um projeto genérico, porque cada ajuste foi feito com um motivo claro.

O papel da liderança nos dados para IA

O gestor não precisa entender de banco de dados. Precisa garantir três coisas: que cada informação crítica tenha um dono, que exista uma fonte da verdade definida e que o acesso respeite as regras de segurança e privacidade.

Com isso resolvido, a conversa muda de “nossos dados não estão prontos” para “quais dados este processo precisa”. É assim que a Horia começa os diagnósticos: pelo processo, e só depois pelos dados que ele usa.

Perguntas frequentes

A IA pode usar dados confidenciais da empresa?

Pode, desde que o acesso seja controlado e o fornecedor não use esses dados para treinar modelos públicos. O agente deve acessar só o necessário para a tarefa, com permissões por perfil. Contratos e configurações devem deixar isso explícito.

Quanto tempo leva para preparar os dados para um projeto de IA?

Quando o escopo é um processo específico, a preparação costuma caber nas primeiras semanas do piloto. O tempo depende de quantas fontes o processo usa e de quantas regras precisam ser escritas. Projetos que tentam organizar todos os dados antes levam muito mais.

Planilhas servem como fonte de dados para IA?

Servem, especialmente quando têm cabeçalhos claros e um responsável pela atualização. O problema aparece quando há várias cópias com valores diferentes. Nesse caso, é preciso definir qual planilha vale.

Preciso treinar um modelo com os dados da minha empresa?

Na maioria dos casos, não. Os agentes atuais consultam os documentos e sistemas da empresa no momento da resposta, sem treinamento próprio. Treinar modelos só faz sentido em situações bem específicas.

Bruno Stefani · Bruno Stefani é sócio da Horia. Trabalha com estratégia e transformação de negócios: onde a IA gera valor, como decidir os investimentos e como conduzir a mudança nas equipes. Outros artigos

Quer olhar isso na sua operação? Converse 45 minutos com a gente, sem custo →