Por que a maioria das empresas ainda não vê valor na IA
A maioria das empresas ainda não vê valor da IA porque trata o tema como tecnologia, quando o maior obstáculo está em pessoas e processos. As empresas que colhem resultado escolhem poucas apostas, redesenham o trabalho, medem o antes e o depois e cobram o número na diretoria.
O valor da IA nas empresas ainda é exceção, não regra. Isso não acontece porque a tecnologia é fraca. Acontece porque a maioria das empresas a trata como um software para instalar, quando ela pede uma mudança na forma de trabalhar.
Este artigo explica onde o valor se perde e o que os líderes que colhem resultado fazem de diferente.
O que dizem os dados sobre o valor da IA nas empresas?
Os dados mostram que a maioria ainda não consegue provar ganho concreto. A pesquisa Where's the Value in AI?, do BCG (2024), indica que 74% das empresas ainda não mostram valor tangível com IA.
O mesmo estudo traz o dado mais útil para quem decide: cerca de 70% do desafio está em pessoas e processos. Algoritmos e tecnologia respondem pela menor parte. Ou seja, comprar uma ferramenta melhor resolve pouco se a forma de trabalhar continuar igual.
O que significa "valor tangível" com IA?
Valor tangível com IA é um ganho que aparece nos números da operação: menos horas, menos erros, prazos menores, mais receita ou menos perdas. Não é a sensação de que as pessoas estão mais produtivas.
Essa distinção importa. Muitas empresas relatam entusiasmo com assistentes de texto. As pessoas escrevem e-mails mais rápido, resumem reuniões. É útil, mas raramente muda o resultado da empresa, porque o tempo economizado se dilui no dia.
O valor aparece quando um processo inteiro muda. Por exemplo, quando a conciliação de notas fiscais deixa de tomar uma semana do fechamento e passa a tomar um dia.
Onde o valor se perde?
O valor se perde em cinco pontos, quase sempre ligados a pessoas e processos. A tabela mostra cada um e o efeito.
| Onde trava | O que acontece | Efeito |
|---|---|---|
| Escolha do problema | Projetos começam pela ferramenta, não por uma dor real | Solução sem uso |
| Dispersão | Muitos testes pequenos, nenhum prioritário | Nada chega à operação |
| Processo intocado | A IA é colocada sobre o fluxo antigo | Ganho pequeno ou nulo |
| Medição ausente | Ninguém mediu o antes | Impossível provar resultado |
| Adoção fraca | Equipe não confia, não foi treinada ou teme perder o cargo | Uso cai após o lançamento |
Repare que só um desses pontos tem a ver com tecnologia em sentido estrito. Os outros são decisões de gestão.
Por que colocar IA sobre o processo antigo não funciona?
Porque o processo antigo foi desenhado para pessoas fazendo tudo à mão. Colocar IA em cima dele acelera uma etapa e deixa as outras como estavam.
Imagine uma área de compras que usa IA para escrever e-mails de cotação. Se a aprovação continua passando por três pessoas e o lançamento no ERP continua manual, o prazo total quase não muda. O gargalo só mudou de lugar.
Redesenhar o processo significa perguntar: se um agente de IA faz a leitura, a comparação e o lançamento, quais etapas ainda precisam de uma pessoa? Normalmente sobra a decisão e a exceção. O resto pode ser revisto.
Peter Drucker, em O Gestor Eficaz, separa eficiência de eficácia: fazer as coisas direito não basta, é preciso fazer as coisas certas. Com IA, essa diferença fica muito concreta.
O que os líderes que colhem valor fazem de diferente?
Eles tratam a IA como mudança de operação, com foco, dono e número. Na prática, seguem cinco hábitos.
- Escolhem poucas apostas. Duas ou três frentes com impacto real, em vez de dezenas de testes.
- Redesenham o trabalho. Reveem o processo de ponta a ponta, não só uma etapa.
- Medem antes de começar. Registram a linha de base e definem a meta do piloto.
- Investem em pessoas. Treinam no fluxo real de trabalho, explicam o que muda e escolhem campeões internos.
- Cobram o número na diretoria. O resultado da IA entra na pauta da reunião de gestão, como qualquer outro indicador.
Nenhum desses hábitos exige tecnologia mais avançada. Exige disciplina de gestão.
Como sair do teste e chegar ao valor?
O caminho é transformar um teste em piloto com meta, e o piloto em operação. Cada etapa tem um critério claro de passagem.
- Teste: mostra que a IA consegue fazer a tarefa. Critério: qualidade aceitável numa amostra real.
- Piloto: mostra que o processo inteiro melhora. Critério: meta atingida num prazo definido, com usuários reais.
- Operação: mostra que o ganho se sustenta. Critério: uso contínuo, custo previsível e dono acompanhando o indicador.
Muitas empresas param na primeira etapa. Comemoram que a IA "funciona" e não seguem para o piloto. Para entender esse padrão, veja por que projetos de IA param no piloto.
Qual o papel da diretoria?
A diretoria define se a IA será tratada como projeto de tecnologia ou como prioridade de negócio. Essa escolha pesa mais do que qualquer ferramenta.
Quando a direção patrocina, escolhe as apostas e pede o número, as áreas se organizam. Quando a direção delega tudo e só pergunta "estamos usando IA?", a resposta será sim, e o valor continuará invisível. O papel da liderança é detalhado em o papel do CEO na transformação com IA.
O que fazer a partir de amanhã?
Comece revendo o que já existe. A maioria das empresas tem iniciativas de IA espalhadas, e parte delas pode virar valor com ajustes simples.
- Liste todas as iniciativas de IA em andamento.
- Para cada uma, pergunte: qual processo ela muda e qual número deveria mexer?
- Encerre as que não têm resposta para essas perguntas.
- Escolha uma ou duas para virar piloto com meta, dono e prazo.
- Coloque o indicador na pauta da diretoria.
É esse tipo de recorte que a Horia faz no diagnóstico: separar o que gera valor do que só gera atividade.
Perguntas frequentes
Quanto tempo leva para a IA gerar valor numa empresa?
Um piloto bem escolhido pode mostrar ganho medido em até 90 dias. O valor em escala depende de repetir o método em outros processos. O prazo cresce quando a empresa pula a medição inicial ou espalha esforço em muitas frentes.
Assistentes como ChatGPT geram valor para a empresa?
Geram ganhos individuais, como escrever ou resumir mais rápido. Mas esses ganhos raramente aparecem nos números da empresa, porque o tempo economizado se dilui. O valor maior vem de mudar processos inteiros com agentes integrados aos sistemas.
Como provar o valor da IA para o conselho ou para os sócios?
Com linha de base e comparação. Meça o processo antes do piloto, defina a meta e apresente o resultado nos mesmos indicadores. Horas, prazo, erros e custo convencem mais do que relatos de uso.
O problema pode ser a escolha da ferramenta errada?
Pode, mas é menos comum do que parece. O BCG indica que cerca de 70% do desafio está em pessoas e processos. Antes de trocar de ferramenta, vale checar se o processo foi redesenhado e se a equipe adotou a solução.
Bruno Stefani · Bruno Stefani é sócio da Horia. Trabalha com estratégia e transformação de negócios: onde a IA gera valor, como decidir os investimentos e como conduzir a mudança nas equipes. Outros artigos
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